Gestão de mudança 3.0 – O ciclo de adoção no microambiente

A obra mais famosa de Jurgen Appelo “Management 3.0” apresenta a teoria da complexidade relacionada à cultura das corporações. O autor criou o monstro Martie para representar um cenário  empresarial orgânico baseado em seis visões. Partindo dessa analogia apresentou ferramentas, estratégias e abordagens para gestão da mudança. Entretanto a obra de Appelo que me chamou muita atenção, principalmente com relação a gestão de mudança, trata-se do livro “Como mudar o mundo: Gestão de mudança 3.0”. No qual o autor discorre especificamente sobre o ciclo de adoção de inovação. Nesse sentido apresenta opções e estratégias para quem deseja trilhar o caminho de consolidar-se como um agente de mudança.

Gestão de mudança, uma abordagem de Jurgen Appelo

A leitura do livro “Como mudar o mundo” transformou a minha visão e entendimento de como funciona uma empresa. A percepção apresentada por Appelo de que uma organização é como uma rede, um sistema social complexo, e que esse sistema possui sua cultura a qual reflete direta ou indiretamente nos comportamentos. Tais reflexões fornecem insights muito importantes para todo aquele que deseja ser um agente de transformação.

Dentre os insights derivados dessa constatação destaco os principais:

  • Buscar entender empresas por meio a seus organogramas com uma abordagem hierárquica é uma visão muito rasa. As instituições são na verdade extremamente complexas e de difícil representação. Organizações são como organismos vivos, redes sociais, dotadas de regras, culturas e comportamentos próprios;
  • Cada companhia é única. Portanto modelos de gestão prescritivos estão fadados ao fracasso ainda mais no mundo de hoje caracterizado pelo VUCA;
  • Jurgen Appelo fala que uma organização é um organismo vivo e complexo. Nesse sentido, cada empresa reagirá de uma maneira única quando uma determinada ação for tomada. Dessa forma, para cada estratégia proposta, será necessário testar, medir, aprender e eventualmente pivotar. É praticamente uma aplicação de Lean Startup em gestão de mudança;
  • Um aprendizado extremamente relevante e muito fácil de identificar é que um organismo complexo possui muitos mecanismos de defesa. Como nossos glóbulos brancos atacam possíveis invasores, que possam fazer mal a nosso corpo. Organizações possuem um considerável percentual de colaboradores resistentes à mudança. Eles irão se organizar e buscar minar o invasor.

A utilização do ciclo de adoção de inovação como ferramenta para apoio do pensamento da estratégia de gestão de mudança foi um ponto que me chamou atenção durante a leitura do livro. Porém, a ficha realmente caiu após uma ótima conversa com a minha sogra. E a partir disso vou contar duas histórias.

Gestão de mudança em pequenos times num curto espaço de tempo

Minha sogra é decoradora, sua especialidade é decoração natalina. Todo o ano, a partir de agosto ela possui agenda lotada, viajando por todo o Brasil para feiras com revendedores e para planejar e executar projetos de grandes lojas do ramo. Em cada local que inicia seu trabalho ela possui de uma a três semanas para montar uma equipe, engajar o time e executar um trabalho encantador esse é sempre o seu desafio. E quer saber? Seus resultados são incríveis!!!

Estávamos passando um fim de semana na Serra Gaúcha, era janeiro, Juraci Monfron havia acabado de encerrar mais uma longa e cansativa jornada de trabalho. Ela me disse assim: “Em todo o local que chego preciso conhecer o material de decoração disponível, realizar toda a criação dos diversos temas, planejar e executar. Mas sabe qual é o maior desafio sempre? Engajar as pessoas e montar um time disposto a aderir a novas formas de trabalhar para materializar a magia natalina em cada trabalho”.

Eu havia acabado de ler o livro “Como mudar o mundo” e no mesmo momento me veio mentalmente a imagem do ciclo de adoção de novos produtos. Então comecei a perguntar se ela identificava nos times comportamentos alinhados a cada um dos perfis do ciclo de adoção e ela foi me relatando casos com cada um dos perfis.

Bingo!!! Nasceu nesse momento uma constatação. O planejamento e a criação de uma estratégia de gestão de mudança tem muito valor em um processo de transformação empresarial. Porém, possui valor similar para um processo de transformação de um time.

 

Gestão de mudança e o ciclo de inovação

Antes de contar a segunda história vou apresentar brevemente os ciclo de inovação. É muito interessante analisar que esse assunto surgiu na psicologia em 1962 com Everett M. Rogers (muitos leitores assim como eu nem eram nascidos), foi muito explorado no marketing para o lançamento de novos produtos e agora está sendo base para estratégias de gestão de mudança. Mesmo assim, do meu ponto de vista faz todo o sentido essa descoberta, pois em 60 anos o ser humano mudou muito. Entretanto existem algumas peculiaridades do Homo Sapiens que são mais duradouras. Talvez isso se explique até mesmo pelas estratégias e histórico de evolução em busca da sobrevivência da espécie.

Inovadores

É muito fácil identificar esse perfil, eles são grandes entusiastas da inovação e mudanças. Seus olhos brilham e seu discurso é forte ao falar em novas formas de trabalho e melhoria contínua.

Eles representam geralmente 2,5% do público em geral. Um exemplo clássico desse perfil são as filas nos lançamentos dos novos iPhones. Eles possuem identidade de aventureiros, não temem assumir riscos e gostam de estar sempre na vanguarda. Os inovadores sentem prazer em possuir informações e experiências em primeira mão e disseminar tais informações para sua rede de relacionamento.

Visionários ou Primeiros adeptos

O segundo grupo de adoção, que representa 13,5% do público geral são os “Visionários ou Primeiros adeptos. Esse grupo tem características bem similares aos inovadores, porém somado a isso têm como característica o perfil de serem líderes de opinião.

Maioria inicial

Representando 34% do público em geral, a maioria tardia tem como característica de observar as experiências dos outros antecessores para fazer adesão a uma mudança. Baseado em uma análise das experiências anteriores irá decidir se adere ou não a mudanças .

Maioria tardia

Esse público que representa também 34% do total, tende a resistir mais às mudanças. Eles não gostam de correr riscos e costumam a aderir às inovações apenas quando sua gestão já comprou a ideia.

Céticos/Retardatários

Representando 16% do total, são o último grupo de pessoas a adotar uma inovação. Eles são relutantes e resistentes em mudar. Geralmente irão adotar uma inovação quando ela se tornar status quo, do contrário resistirão e talvez tentem sabotar a mudança.

Abismo, o que é? Como transpor

O Abismo trata-se exatamente do limite entre as pessoas que aderem rapidamente à mudança e às que resistem. Devido a isso as estratégias de mudança na transição entre essas duas etapas são de suma importância pois ao superar o abismo e atingir os primeiros adeptos já teremos conquistado 50% do público desejado. É importante lembrar que os primeiros adeptos são altamente direcionados a se comportarem de acordo com o desejo da camada hierárquica superior. Dessa forma conquistando seus líderes, boa parte do caminho estará trilhada.

Gestão de mudança, entenda o Ciclo de adoção de inovação

Gestão de mudança, ciclo de adoção de Novos Produtos pelos Consumidores

É muito importante planejar os processos de transformação de acordo com esse gráfico. Todavia é importante também projetar planos de ação para eventuais ataques que provavelmente virão dos conservadores ou céticos. Vou relatar uma experiência que apresenta um risco na prática.

 

Gestão de mudança em um time ágil

Havia um time realizando a implantação de um grande produto, foi adotado framework Scrum para sua execução e já haviam decorridos sete meses desde o início da formação da equipe. Nesse momento o time estava na fase de “Normatização” da Curva de Tuckman e já dava sinais de que, em breve, atingiria o estágio de “Performar”.

Foi então que começou a se aproximar a data de um release extremamente importante para o negócio e com data de entrega fixa. Havia um número considerável de histórias para consolidar o incremento necessário para o release, porém o time havia sinalizado que era plenamente factível.

Nesse momento entra em cena nosso personagem identificado entre o perfil de “cético” e “conservador”. Por ironia do destino ele era a liderança técnica da equipe, ao sentir-se inseguro com a data do release, escalonou o assunto para a gerência. Surpreendentemente afirmava que o time estava com uma performance abaixo do que poderia e, que a causa disso seria, a adoção do framework Scrum, mais especificamente o tempo investido nas cerimônias.

A questão foi contornada junto à gestão apresentando-se dados e fatos relacionados à performance da equipe. O fato foi tratado junto ao time com ações muito fortes de transparência e prosseguimento do processo de melhoria contínua. E também foi resolvido com o profissional por meio de novas conversas francas e abertas. Porém, o que fica marcante é a lição de estar sempre atendo à rejeição à mudança.

 

Gestão de mudança e o ciclo de inovação e estratégias para cada público

O profissional em questão já havia demonstrado que era avesso a determinadas mudanças. Analisando o ciclo de inovação ficava claro que era necessário realizar uma ação específica para mitigar impactos de um ataque de um ator do sistema que deseja manter o status quo. Infelizmente eu ainda não tinha lido o livro “Como mudar o mundo” e acabei tendo uma visão míope naquele momento.

A história relatada deixa claro que é muito importante entender profundamente a curva de adoção da mudança. E sobretudo, com base nela, criar estratégias para cada um dos públicos. Recomendo fortemente a leitura do livro  “Como mudar o mundo: Gestão de mudança 3.0” é um livro enxuto e extremamente focado em apresentar de forma prática como viabilizar e acelerar transformações culturais em ambientes corporativos.

Gostou do assunto? Faz sentido para você? Concorda? Discorda? Já passou por uma situação parecida?

Vamos mudar o mundo, compartilhe conosco suas experiências!

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *