Afinal, Você Pensa de Forma Ágil?

Acompanho constantemente o movimento ágil em várias empresas nacionais e multinacionais e me pergunto se de fato estão aplicando agilidade ou simplesmente depositando suas expectativas em ferramentas e frameworks. Como se houvesse uma mágica que permitisse que a escolha de um Scrum Master, um Product Owner e a realização de algumas cerimônias conseguisse esta transformação de forma natural.   

Em minha trajetória profissional passei por algumas empresas que adotaram o Scrum como framework para desenvolvimento de produtos complexos na expectativa de obter menor custo, mais qualidade, menor prazo e sobretudo suprir as expectativas do cliente com eficiência.

Bom, pelo menos este era o objetivo, mas o fato é que em 90% dos casos esta tentativa falhou.

Não bastou estabelecer papéis, implementar regras e definir cerimônias. Muitas nuances passaram despercebidas pelas equipes como, por exemplo, falha de comunicação tanto na criação das estórias de usuários, onde o P.O. não conseguiu captar de forma eficiente as reais necessidades dos clientes, quanto na realização das cerimônias. Especificamente na Sprint Planning, onde o entendimento equivocado das reais necessidades dos clientes geravam metas intangíveis.

A falta de métricas que permitissem realmente evoluir e praticar a melhoria contínua foi outro fator que colaborou para o insucesso.

Na época, quem pagou a conta pela frustração foi equivocadamente o Scrum. A percepção final foi de que o framework era ótimo para projetos pequenos, mas para grandes projetos era ineficiente.

Provavelmente, se utilizássemos Lean Kanban, XP, A3 ou qualquer outra ferramenta as adversidades seriam as mesmas, porque obviamente o problema não estava no Scrum mas na maturidade das equipes para serem de fato ágeis.  Não pensávamos de forma ágil.

Naquele momento não consegui identificar estes fatores mas tempos depois, “caiu a ficha”.

Comecei a entender que agilidade é um modo de vida, uma nova forma de pensar, um ideal. O Agilista antes de tudo é um Agente da Transformação, um idealista que se utiliza de ferramentas, frameworks e técnicas para não somente desenvolver produtos mas sobretudo para melhorar a vida das pessoas e das empresas. Isto perece “poético” demais, não é mesmo? Mas não é.

Talvez todos sejamos resistentes. Dizer não à mudança é um mecanismo de proteção natural do cérebro humano. Entendemos inconscientemente ser mais cômodo ficar em nossa zona de conforto, pois desta forma garantimos segurança.

É justamente contra esta falsa segurança que precisamos lutar, caso tivermos a pretensão de ser Agentes da Transformação.

Uma das frases mais proferidas pelos resistentes é a seguinte: – Ah, mas na vida real não é bem assim!

Esta é uma resposta perfeita para justificar a resistência ao novo e principalmente o medo de errar. Vivemos em um contexto onde o erro é condenatório. Não podemos errar em hipótese alguma, caso contrário estaremos demonstrando nossas fraquezas.

Uma das principais características de um Agilista é justamente permitir-se ao erro, sem culpa ou medo. Esta é a essência da experimentação e da melhoria contínua: errar, corrigir, aprender e evoluir. É o conceito japonês Shu-Ha-Ri.

Claro, é importante não confundir “não ter medo de errar” com “ser inconsequente”. Saber errar, é vital. Precisamos planejar nossas ações para posteriormente experimentá-las.

Elenco algumas características que julgo essenciais para um Agilista:

  • Flexibilidade: É necessário entender o contexto no qual se pretende realizar as mudanças e entender que este processo é progressivo. O Agente da Transformação precisa realizar a leitura do ambiente (cultura da empresa e mindset) de forma correta e a partir disso iniciar o movimento de mudança. Lembre-se que uma mudança para ser eficaz não pode ser impositiva.   
  • Resiliência: Conforme conversamos, mudanças geram desconforto. Uma característica importante de um Agilista é justamente a capacidade de adaptar-se e perseverar neste cenário, pois a construção de mindset via de regra é um processo demorado. As pessoas provavelmente tentarão dissuadi-lo sob o pretexto de continuar em suas zonas de conforto. Não esqueça de que um Agente da Mudança, antes de tudo é um idealista.
  • Domínio de técnicas e ferramentas: Não prenda-se a conceitos específicos, até mesmo, porque os ambientes corporativos são dinâmicos. Entender qual ferramenta ou técnica deve ser utilizada em determinado contexto é essencial para o sucesso do projeto e para a construção do mindset das equipes.
  • Liderança: Para ser um Agente da Mudança e impactar as pessoas positivamente, é necessário atitude. Automotivação, empatia e capacidade de persuasão positiva são alguns dos atributos necessários para mudança de mindset das equipes.  
  •  Colaboração e comunicação: Estes são dois atributos importantíssimos para um Agilista. Cooperar, comunicar-se adequadamente, praticar empatia colocar-se a serviço do time é fundamental e proporciona respeitabilidade para construção de uma visão ágil.

Abaixo, deixo algumas dicas que acredito ser importantes no momento de promover a mudança e construir uma nova forma de pensar:

  1. Atente para a cultura da empresa: Boa parte dos insucessos para implementação de frameworks, ferramentas e técnicas ágeis estão intrinsecamente ligados à cultura das empresas. Tente não vender um antídoto milagroso e preste atenção nos valores, missão e visão que constituem a cultura. Para que a mudança seja possível é necessário deixar claro quais benefícios serão conquistados e sobretudo como estes estarão aliados à estratégia da companhia. 
  2. Outro ponto, lembre-se que na maioria das empresas as decisões ainda são bastantes centralizadas (Management 2.0).  Portanto, a abordagem ágil deve ser muito bem estruturada para não impor mudanças bruscas que mexam demasiado na cultura das companhias, pois como o próprio nome diz cultura corresponde à crenças e raízes. As equipes precisam efetivamente comprar a ideia.
  3. Ambiente: Promova um ambiente colaborativo e estabeleça proximidade entre as equipes. Priorize a comunicação peer-to-peer, proporcione autonomia para as equipes e fomente as motivações intrísecas (Management 3.0).
  4. Ferramentas, são somente ferramentas: Mostre às equipes que ferramentas devem ser tratadas como tal. Todo e qualquer framework ágil deve ser visto somente como uma viabilidade, que obviamente para ser utilizado de forma eficiente necessita que as pessoas saibam realmente como utilizá-los. Ferramentas não são mais importantes que pessoas.
  5. Encontre aliados: Identifque no ambiente aliados que serão possíveis Agentes de Transformação, ou seja, pessoas abertas à mudança que servirão como apoiadores e replicadores da cultura e do mindset ágil. Fomente suas capacidades.
  6. Identifique os públicos: Saiba identificar os diversos públicos que farão parte da mudança. Defina sua estratégia de tranformação e inovação para cada um deles. Isto fará com que esta seja melhor aceita.

Por fim, tenha convicção de que o mundo está mudando e o movimento ágil é um caminho sem retorno. Aderir à esta nova visão de mundo (que já não é tão nova assim) não refere-se apenas a um diferencial, significa adaptação. É questão de sobrevivência num ambiente volátil, onde a entrega de “valor”, na acepção da palavra, passou a ser premissa de mercado.

Esta é a visão de mundo do Agilebox. E você, está pensando de forma ágil?

Deixem seus comentários. Gostaríamos de saber sua opinião sobre o tema. 

Segue alguns links de referência alinhados ao que conversamos:

Lean Startup

Mindset

Manifesto Ágil

Um abraço e até breve.

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