A Filosofia da Transformação Ágil

Tenho acompanhado o processo de transformação ágil em diversas empresas, e acredito que seu sucesso está 100% associado a fatores humanos.

Por este motivo, inicio este artigo falando sobre filosofia, utilizando uma de minhas metáforas favoritas: A Alegoria da Caverna de Platão. Esta parábola é perfeita para conectar os fatores humanos aos processos de mudança desencadeados atualmente pelas empresas. A famosa “Transformação Ágil”.

A Alegoria da Caverna ou Mito da Caverna é uma parábola escrita por Platão por volta de 400 a.C.

A história retrata pessoas acorrentadas, sem poderem mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, sem poder ver uns aos outros ou a si próprios. Atrás dos prisioneiros há uma fogueira, separada deles por uma parede baixa, por detrás da qual passam pessoas carregando objetos que representam “homens e outras coisas viventes”. As pessoas caminham por detrás da parede de modo que os seus corpos não projetam sombras, mas sim os objetos que carregam. Os prisioneiros não podem ver o que se passa atrás deles e veem apenas as sombras que são projetadas na parede em frente a eles. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser deles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.

Imagine que um dos prisioneiros seja libertado e forçado a olhar o fogo e os objetos que faziam as sombras (uma nova realidade, um conhecimento novo). A luz iria ferir os seus olhos e ele não poderia ver bem. Se lhe disserem que era real e que as imagens que anteriormente via não o eram, ele não acreditaria. Na sua confusão, o prisioneiro tentaria voltar para a caverna, para aquilo a que estava acostumado e podia ver.

Caso ele decidisse voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontram, os seus olhos, agora acostumados à luz, ficariam cegos devido à escuridão, assim como tinham ficado cegos com a luz. Os outros prisioneiros, ao ver isto, concluiriam que sair da caverna tinha causado graves danos ao companheiro e, por isso, não deveriam sair dali nunca. Se o pudessem fazer, matariam quem tentasse tirá-los da caverna.

Platão buscava mostrar como o ser humano pode se libertar da condição de escuridão através da luz da verdade do conhecimento.

Mas qual a conexão desta parábola com Transformação Ágil nos ambientes corporativos?

Exatamente tudo! E nunca esteve tão atual.

Para demonstrar este vínculo, primeiramente é preciso entender que ainda vivemos num modelo organizacional baseado fortemente na cultura de Gestão 2.0. Nesse modelo, as empresas ainda carregam em seu DNA estruturas baseadas fortemente na hierarquização e comando e controle. O que dificulta a autonomia, criatividade, aprendizado e inovação.

É importante também transcender nosso entendimento para além-fronteiras do trabalho. Com raras exceções, esta forma “tradicional” de pensar nos foi passada dentro de nossas casas, de geração a geração por nossos pais e familiares, pois este foi o modelo que aprenderam como sendo o mais eficiente.

Escolas, círculos de amizade, enfim todos os ambientes e sociedades dentro dos quais convivemos ajudaram a construir essa forma de ver o mundo.

Passamos a maior parte de nossas vidas utilizando este “modus operandi” e nosso cérebro assim aprendeu. Gerando um modelo mental que temos como verdade, mas que já não é eficiente para o contexto atual, pois nos deparamos com um mundo VUCA.

Acontece, que no meio do caminho também descobrimos uma nova forma de realizar nossas atividades e vivenciar experiências chamada AGILIDADE.

Este conceito nos mostra que é de fato possível sobreviver neste mundo novo, entregar produtos incríveis, em menor tempo e gastando ⅓ em média do valor previsto. E o melhor, essa “tal Agilidade” permite errar para posteriormente aprender com os erros e desta forma evoluir constantemente.

Com essa nova forma de trabalho conseguimos explorar a criatividade, melhorar o relacionamento com os times utilizando métodos de comunicação mais eficientes e assertivos. Conseguimos de fato ser colaborativos.

Tudo isso seria maravilhoso, se não esquecêssemos de que nosso cérebro ainda está atrelado à nossa cultura tradicional e estamos inseridos em ambientes 2.0. Obviamente, este paradigma não é simples de ser quebrado.

Quando não conseguimos nos adaptar de forma imediata, o que é perfeitamente natural, culpamos essa tal Agilidade, dizendo que ela não funciona e veio somente para pregar utopia.

Agimos tal qual os homens acorrentados da Alegoria da Caverna de Platão, refutando a mudança que nos trará desconforto e instabilidade.

Aliás, a Curva da Mudança é uma ferramenta perfeita para entendermos nossas reações mediante a um processo de mudança.

Segundo Kübler-Ross, para que o processo de mudança se consolide são necessários cinco de fases:

  1. Negação: “Isto não pode acontecer. Não aceito.”

  2. Raiva: “Por que isso agora? Não farei parte disso, não é justo.”

  3. Barganha: “Gostaria de que tudo ficasse como antes, mas vamos analisar o impacto da mudança.”

  4. Aceitação: “Vai tudo ficar bem.”, “Eu não consigo lutar contra isto, é melhor preparar-me e verificar alternativas.”

  5. Integração: “Como esta mudança foi positiva. Porque não mudei antes.”

Na verdade, precisamos de certo tempo para percorrer esta jornada e alcançar o quinto nível.

Tempos atrás um amigo, Agile Coach, mostrou-me um vídeo que achei fantástico. O vídeo da bicicleta invertida. Nele o cientista inverte o guidão da bicicleta propositalmente para mostrar a reação neurológica do cérebro mediante a mudança.

É incrível!!!

Abre nosso entendimento sobre este processo.

Com treinos diários, o cientista levou sete meses para colher os primeiros resultados, diga-se de passagem, bastante incipientes.

Portanto, este empirismo comprova que a mudança não é algo rápido. Isto se estende também para empresas.

Certamente, nesse momento você deve estar pensando:

  • Mas a maioria das organizações não tem tempo para esperar este processo neurológico e efetivar a mudança. Afinal, tempo é dinheiro, não é mesmo?

Sim, é verdade. E este é o grande erro que comentem. Acabam empurrando a mudança, depositando suas as expectativas em ferramentas, frameworks, métodos, aguardando resultados milagrosos a curto prazo, mas sem levar em conta que os atores principais deste processo são as pessoas. Sem elas, nada acontece.

Tanto os C-Levels quanto os níveis operacionais precisam desta conscientização. É necessário planejamento e autonomia para que os times iniciem este movimento gradativo.

Como Agilistas, Agentes da Mudança precisamos ser resilientes e sobretudo capitanear este movimento.

Trabalhar peer-to-peer com todos os níveis da empresa, utilizar ferramentas, capacitações, comunicação ágil, gestão visual, infraestrutura, propiciando a visão de valor da mudança, não somente através de métricas de monetização, mas principalmente demonstrando o crescimento nos níveis de conhecimento e engajamento dos times. Aspectos humanos são muito importantes.

Encontrar aliados internos, preferencialmente formadores de opinião que o ajudem na transformação é imprescindível.

Realizar benchmarking, buscar aprendizados externos com quem já percorreu o mesmo caminho. Se necessário, convide profissionais referência de mercado para que o ajudem nessa jornada.

Traçar um plano com objetivos claros e definidos (como e quando atingir) para cada etapa da jornada, claro sempre respeitando o tempo da mudança.

Por fim, lembre-se que não existe bala de prata.

Agilidade é antes de tudo comportamento e sendo assim o exemplo é o melhor caminho para a transformação.

Sejamos proativos! Sejamos exemplo!

É necessário “sair da caverna em busca da luz”. E quando chegarmos do outro lado e percebermos este mundo novo, amplo, aberto, cheio de possibilidades, colhendo os frutos desta mudança através de entrega de valor, colaboração e construindo senso de propósito, então não retornaremos mais para a “frente da fogueira”.

A partir deste momento, iniciaremos de fato a mudança de mindset e a transformação ágil.

Então? Vamos sair da caverna?

 

 

2 comentários em “A Filosofia da Transformação Ágil

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